quinta-feira, 29 de abril de 2010

Hoje é o dia de Sofia...

A Bailarina
Esta menina tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

(Cecília Meirelse in Ou isto ou aquilo, Ed. Nova Fronteira)



Agora você está na internet, viu? Você é uma menina linda e especial, por isso quero que minha Sofia (a 2ª) seja como você. Eu acredito que gatos falam... E você, acredita? Sabe o que você é pra mim? Nhão sabe?Im po tan te.Rsss.Eu te amo, cê me ama?


Feliz Aniversário Sofia!!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Mas é carnaval, não me diga mais quem é você, amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar, que hoje eu sou da maneira que você me quer....."

Gosto da idéia do carnaval, da alegria triste dos Pierrots do passado, talvez goste de um carnaval que não vivi, e que gostaria de ter vivido. O carnaval dos salões das marchinhas que inspiravam amores escondidos pelas máscaras nos rostos, que acabavam na quarta-feira de cinzas. É este carnaval que homenageio neste post, a idéia do carnaval, e não o carnaval mercadológico dos tempos mosdernos.Seja na idéia ou na rua. Feliz Carnaval "Seja você quem for, seja o que Deus quiser, seja você quem for...Seja o que Deus quiser" 


Um pierrot apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando



A colombina entrou no botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: "Pierrot, cacete!
Vai tomar sorvete com o arlequim!"

       Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrot aconteceu assim:
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim!
(Pierrot Apaixonado, Noel Rosa)



Quanto riso oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da colombina
No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez
Está fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou e te beijou meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval
(Zé Queti)
 
PIERROT
O pierrot apaixonado chora pelo amor da colombina

E a sua sina chorar a ilusão em vão, em vão
E a colombina só quer um amor
Que não encontra num braço qualquer
Essa menina não quer mais saber de mal-me-quer
Só do pierrot, pierrot
Pierrot, pierrot, pierrot, pierrot...

O pierrot apaixonado chora pelo amor da colombina
E na esquina se mata a beber pra esquecer, pra esquecer

E o pierrot só queria amar
E dar um basta a esta dor já sem fim
Mas colombina trocou seu amor por arlequim
E o pierrot, chora!
E o pierrot, chora!
E o pierrot, chora!
Pierrot...
(Los Hermanos)

domingo, 31 de janeiro de 2010

"Gosto quando a chuva molha o meu rosto..."



Casa Pré-Fabricada



Abre os teus armários, eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços, castos
Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar
E fazer do teu sorriso um abrigo
Canta que é no canto que eu vou chegar
Canta o teu encanto que é pra me encantar
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais

Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela, a primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota

Canto que é de canto que eu vou chegar
Canto e toco um tanto que é pra te encantar
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais

(Los Hermanos)




O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
(Adélia Prado)


Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma.Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo.Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu…Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força.Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer.Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão.Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma.




Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
(Clarice Lispector)



Oriente
Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração

Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão

Pela curiosidade de ver
Onde o sol se esconde
Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo depende
De determinação
Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão
(Gilberto Gil)





Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente
Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
(...)
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
Escreve diários...
E lava os cabelos com shampoos diferentes
(...)
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga
Tem computador e rede, rede para dois
(...)
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema
Sabe espantar o tédio
(...)
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
(Marisa Monte/Gerânio)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

" O Meu olhar é nítido como um girassol"

Meu primeiro escrito do ano recorre a receita de ano novo de Drummond e a experiência do olhar por Fernando Pessoa. Drummond diz que para ganharmos um ano novo, digno de receber tal nome, é preciso merecê-lo. E acrescenta que não adianta fazer lista de boas intenções, segundo o poeta, só há um lugar onde o ano novo cochila: dentro de nós mesmos.É uma linda receita, vale a pena segui-la. Sempre digo que tenho dois momentos de ano novo: janeiro e março. Nasci em janeiro, adoro meu mês, mas sempre volto a nascer em março.É um mês especial para mim, por suas águas, elas sempre me trazem boas novas. 2009 foi difícil, porém importante. Encontrei aquele que veio ser o meu Consolador -Jesus- e  o que era cinza se foi e voltei a viver. Hoje quero falar do que espero deste ano que para mim está começando, é nele que meus desejos esperam ser acordados Espero fazer com que ele mereça ser chamado Novo realmente. Como não poderia deixar de ser, escolhi Fernando Pessoa como lema para meu ano novo. A escolha é dupla: primeiro deve-se ao meu amor por ele, e segundo por festejar meu feliz encontro acadêmico com sua poesia. Este poema é de Alberto Caeiro, foi escrito em março de 1914 no "dia triunfal", quando Fernando Pessoa numa espécie de extase deu vida aos heterônimos considerados perfeitos, o poeta  fala da experiência do "olhar". O olhar antecipa o ver. Quem não olha, não consegue ter o pasmo essencial de que fala Caeiro. É o que mais me chama a atenção neste poema, esse Olhar as coisas como se fosse a primeira vez. Saber dar por isso, eis a mágica da poesia. Andei pensando em desejos, sonhos, metas e objetivos para 2010. Um deles já está fadado, os outros estou em busca. Quero muito que minha experiência com àquelas pessoas seja melhor, quero poder me doar mais, sei que posso. Bem, Pasárgada já não é mais sonho, isso não quer dizer que deixei de amá-la. Isso não, aquelas águas serão sempre minhas e guardarão grandes momentos, regados a vinho, poesia e papos existencias. E não descarto a possibilidade de ter meu último andar por lá. Ele é quem sabe. E minha Sofia? Bem este sonho continua guardadinho com cheiro de coisa nova, esperando o momento certo de vir a ser. Estou feliz, sinto-me num grande momento , de crescimento. Acho que percebemos que crescemos quando aprendemos a lidar com as perdas, e extrair delas o bem. Hoje eu sou assim, desde aquela morte necessária, e como diz minha grande amiga "é preciso morrer para nascer/ sobrevida, não é vida", ensinamentos do S.S.A.P.S. Desejo a todos que passarem por aqui, um lindo ano e merecidamente novo, que a poesia  encha de cor nossas vidas. Que possamos estar sempre acordados para o novo. Que saibamos abandonar o que não causa o bem, para nós e para o outros. Vivamos tudo em cada vão momento, e com Ricardo Reis "aprendemos que a vida passa (...) e enlacemos as mãos". Carpe Diem para todos. Feliz Ano Novo!!!Beijos no coração. Fernando Pessoa para vocês.


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
(Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914)

sábado, 3 de outubro de 2009

Sobre livros e leituras

Andei refeletindo sobre como a literatura entrou em minha vida. Drummond em "Procura da Poesia" fala de certa "chave" que precisamos para penetrar no reino das palavras. Creio que recebi essa chave das mãos de meu pai. Sempre o vi lendo, e escrevendo. Lembro-me que nos escrevia muitas cartas quando morava distante. Lembro de escrever para ele, guardo comigo uma cartinha que escrevi bem menina. Hoje sei que herdei dele o amor pelas cartas. Assim fui penetrando no reino das palavras, guiada pelas mãos humanas e amorosas de meu pai. Depois vieram os primeiros livros "Alice no fundo do espelho", "Os músicos de Bremen" e "A pequena vendedora de fósforos". Brincava com boneca de papel que minha irmã fazia-nos, e elas moravam nesses livros. A literatura, com seu poder de vida e morte tem me acompanhado desde sempre, são marcas indeléveis em mim. Gosto de viver entre seres como: Clarissa, os Buendia, Orlando, Miguilim, Nininha, Raquel, Alfredo e tantos outros. Digo que sempre em minhas aulas que e literatura é um compêndio de vida. Entristeço-me quando não consigo partilhá-la com todos que desejo. Como professora faço disso minha profissão de fé, porém nem todos que encontramos por esse mundão de meu Deus conseguem acordar seus ouvidos, e ouvir estrelas. Ando pensando muito nisso. Há que se ter força e muito amor. Como disse Castro Alves que seja bendito o que semeia livros. Livros a mão cheia


Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
(Livros:Caetano Veloso)



"Eu sozinho menino entre mangueiras,
lia a história de Robinson Crusoé,comprida história que não acaba mais.
(...)
(Infância:Drummond)

"Convivência entre o poeta e o leitor, só no silêncio da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor. Este não quer saber de terceiros, não quer que interpretem, que cantem, que dancem um poema. O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio..."
(O Silêncio: Mario Quintana)


"Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim"
(Descobrimento do Brasil:Mário de Andrade)


"Vê se tem no almanaque,essa menina,
como é que termina um grande amor"
(Almanaque:Chico Buarque)


"Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia."
(Poética:Vinícius de Moraes)


"Caço a palavra caço-me na palavra ato-me"

(Entrelinha:Max Martins)



"Escrever é uma salvação.
Escrever é procurar entender.
Escrever é abençoar uma vida que não foi abençoada."
(Clarice Lispector)

domingo, 6 de setembro de 2009

FELIZ DESANIVERSÁRIO, EDWARD!!!!!


Sempre o chamei assim - Edward - por causa do filme. Ele não tem mãos de tesoura, mas tem um coração limpo e lindo como o de Edward do filme. Quem o conhece entenderá do que falo. Foi amizade a primeira vista. Em meio a um ambiente tão carregado ele fez toda a diferença em minha passagem por aquele lugar. Pode ser que nem leia esse texto, mas preciso me retratar em público por haver esquecido seu dia especial. Como ando no país das maravilhas não posso deixar de recorrer a Alice para amenizar minha falta. Sabia, sei e saberei que é de 05, mas não atentei que o dia havia chegado, e ele passou por mim, e não lembrei. Mas de posse da frase de Alice, esse texto e esse dia será sempre o dia que ele ou alguém quiser comemorá-lo. Apesar de não nos vermos com frequência faço valer a filosofia bruniana que sempre me diz: Existem pessoas tão especiais, que não há nada que nos separe delas, pois estão tão grudadas em nossos corações e em nossas vidas que não há, tempo nem distância que as roubem de nós. Elas são e serão sempre nossas. Você é assim para mim. Perdão e Feliz desaniversário. Amo você.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quando entrar Setembro....


Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
Juntos outra vez...



Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar...

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer...

Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender...
(Beto Guedes e Ronaldo Bestos)

Gosto sempre de cantar essa canção quando entra setembro. Gosto muito de ter nascido em Janeiro, mas não me importo de nascer novamente em Setembro.É o mês de minha irmã Selma que parece muito comigo, deve ser por isso que o sinto um pouco meu também. Hoje li um texto muito interessante sobre "Deixar pra depois". Coisas do tipo louça na pia, visitar um amigo, começar a fazer dieta, ir ao médico, corrigir um tcc, ler um texto, dar banho em Biel, e tantas outras coisas. Tem para todos os gostos, das mais miudinhas até as de grandes proporções. Isso chama-se "procrastinar", ou seja, deixar para depois o que você pode fazer agora. Provavelmente já se depararam com situações desse tipo, o texto revela que "não se trata de algo cultural, mas de conduta intrínseca ao ser humano". Legal me encontrar com este texto, pois estou em pleno processo de revisão de sonhos, metas e planos. Parodiando JK que sonhou 50 anos em 5. Meu desejo é 10 anos em 1. Alguns acharam falta de modéstia minha. Será? Sei que não. Navegar é preciso, já disse Pessoa. A verdade é que deixar para depois parece bem interessante. Afinal, quem nunca deixou uma loucinha a sua espera na pia, que jogue a primeira pedra. O problema é quando depois da xícara, vem uma colher, e depois um prato, e mais um prato, e depois uma panela, e a grande questão existencial...Por que não resolvi isso logo, enquanto ela era só uma xicarazinha? E ainda acham que 10 anos em 1 é falta de modéstia. Que nada, é o preço dos momentos de procrastinação, agora é ir a luta. Navegar é preciso, e há muitos mares além do rio de minha aldeia.
Segue o texto.


Amanhã eu faço


Adiar tarefas, planos e sonhos é muito mais comum do que se pensa. Mas pode ser muito mais custoso também. Quer saber por quê? Então não deixe para depois e leia esta reportagem agora!
(Texto Rafael Tonon)

Faz uns 40 minutos que eu liguei o computador e abri um novo documento no Word na tentativa de começar a escrever este texto. Mas, antes de sentar aqui, na minha mesa, enfrentar a temida página em branco e começar a digitar estas letras, fui à cozinha preparar um café para ficar mais concentrado. Aproveitei para roubar uma bolacha do pote de vidro de cima da pia e puxei um assunto qualquer com a Cris, a moça que trabalha em casa. Na volta para o meu quarto, já com a xícara de café na mão, passei pela sala e espiei as manchetes do jornal que estava em cima da mesa. Não hesitei: puxei a cadeira e fiquei ali, lendo as notícias do dia. Quando voltei ao computador, abri logo meu correio eletrônico, dei um “enviar e receber” nos meus e-mails e acabei me distraindo ao responder às mensagens que chegaram. Depois que eu terminei, fui lembrar do arquivo à espera do meu texto... “Chega de protelar”, pensei. “É hora de trabalhar.”


Aposto que você, quando pegou a revista para ler, também deixou algumas tarefas para segundo plano: lavar a louça acumulada na pia (sempre ela), dar um telefonema, guardar no armário a roupa passada (ou colocar para lavar a roupa suja)... Enfim, algo deve ter ficado para mais tarde – ou para amanhã, dependendo da intensidade da sua falta de vontade de realizar determinadas coisas. Toda hora, temos que decidir o que fazer. E, para cada coisa que fazemos, há uma relação de coisas não feitas. E isso é bem comum, principalmente nos dias atuais, em que as tarefas parecem se multiplicar nas nossas agendas. Tão comum, aliás, que existe até um termo criado para explicar esse comportamento demasiado humano: procrastinação, que, do latim, significa “postergar, atrasar, demorar, adiar, delongar”.


A psicologia moderna já descobriu que 80% das pessoas procrastinam com certa frequência (se computarmos as que procrastinam de vez em quando, o número certamente sobe para 99,9%). O que nos leva a concluir que o nível de popularidade dessa tendência comportamental está mais em alta que a de muitos políticos por aí. Isso porque a procrastinação está presente em todas as áreas da nossa vida, do trabalho às questões pessoais. Procrastinamos a dieta, a arrumação dos armários, o check-up médico, o envio daquela cotação a um cliente, a entrega da declaração do Imposto de Renda. (Esse último item, aliás, vale um parêntese: este ano, a Receita Federal deu dois meses para receber as declarações dos contribuintes. A dez dias do prazo final, nem metade dos brasileiros que precisam declarar seus bens tinha enviado o documento ao governo. Sim, nós deixamos mesmo as coisas para a última hora.)

Estamos nessa: Ou seja, postergar nossos afazeres é bem mais normal do que poderíamos supor. Quem garante é o psicólogo Joseph Ferrari, da Universidade De Paul, do estado americano de Illinois, e um especialista no assunto. Ele estudou esse comportamento em países tão distintos como Austrália, Estados Unidos e Venezuela para comprovar que não se trata de algo cultural, mas de conduta intrínseca ao ser humano. “É um comportamento que é considerado tão natural na nossa sociedade que a maioria de nós começa o dia procrastinando, ao apertar aquele botão do despertador que permite que fiquemos na cama por mais cinco minutinhos”, diz. “Procrastinamos o tempo todo sem nem mesmo perceber que o fazemos.”


Em pequena escala, empurrar com a barriga pode ser plausível. Afinal, há mais coisas a serem feitas do que qualquer um poderia dar conta em um único dia. Lembrar-se disso já é uma boa forma de ver a procrastinação com bons olhos, sem nos culparmos por não conseguirmos resolver todas as tarefas que a vida nos impõe. Não há mal nenhum em deixar para amanhã a renovação da carteira de motorista, o banho do cachorro ou a ida à costureira para pegar as roupas que ficaram prontas. O problema é quando se preterem muitas das tarefas. Ou então quando se adiam algumas delas por tempo demais.


O publicitário Sérgio Katz só se deu conta de que precisava parar de postergar os seus compromissos quando isso passou a lhe causar uma série de prejuízos – inclusive financeiros. Num curto intervalo de tempo, ele perdeu voos e a revisão gratuita do carro, pagou a academia de ginástica por meses sem nem ir sequer uma única vez e adiou incontáveis consultas e exames médicos. “Mas, de todas, a penalidade mais significativa era a tensão gerada e a energia que eu desperdiçava ao conviver permanentemente com uma preocupação sem resolvê-la de fato”, diz. Quem procrastina sempre tem a ilusão de que adiar o problema é uma forma de solucioná- lo por enquanto. É como se o escondesse debaixo do tapete para, na próxima faxina, lidar novamente com ele. Mas a questão é que os problemas não deixam de existir na mente de quem os adia. E, o que é pior, alguns deles tomam proporções maiores com o passar do tempo. Se você deixar para cortar a grama no mês que vem, pode ter um esforço maior do que teria se a aparasse hoje. Esta é a percepção que o procrastinador não consegue enxergar: deixar para depois é quase sempre mais custoso.


O adiamento de algumas tarefas acaba virando uma bola de neve. Sem conseguir controlar o próprio tempo e as próprias ações, a pessoa percebe que os dias passam sem que ela tenha conseguido lidar de fato com as situações, causando uma angústia enorme. Sérgio diz que sempre foi de deixar as coisas para depois, como estudar de última hora nas vésperas das provas, quando ainda era um aluno do Ensino Médio. Mas, com a chegada da vida adulta e o acúmulo de responsabilidades que ela trouxe, ele tem que aprender a se refrear a cada dia. “Hoje, cada vez mais, concordo com uma música da Legião Urbana que fala que ‘disciplina é liberdade’”, conta.


A tal prioridade: Mas, se a procrastinação pode causar tantos danos, por quê, afinal, nós deixamos para amanhã o que devemos ou podemos fazer hoje? Segundo Ferrari, temos a tendência de postergar tudo o que parece ser tedioso, demanda muito trabalho, não é para hoje. Ou o que não nos dê prazer imediato. A procrastinação é um embate entre o tempo psicológico, estabelecido pelos nossos desejos, e o tempo social, que é o marcado pelo do tique-taque constante do relógio. E ela pode estar relacionada a diferentes razões. Uma é a falta de autocontrole, que faz com que as pessoas acabem adiando atividades para as quais deveriam dar prioridade, justamente por agir de forma impulsiva e perder o senso crítico e racional da situação.


São pessoas que dizem gostar de trabalhar sob pressão ou resolver as coisas no limite do tempo. E afirmam ter um desempenho melhor dessa forma. Está certo que, enquanto o jogo está valendo, é possível fazer um gol até os 45 minutos do segundo tempo. Mas a chance de vencer uma partida com um gol de última hora é muito mais uma questão de sorte do que de bom desempenho. Nesse minuto final tão decisivo para o placar, é possível perder o passe, ter a bola roubada, errar o chute. Aí não há mais tempo hábil para reverter o jogo. “Essas pessoas nem sempre gostam de trabalhar assim, mas por ter dificuldade de estimar o próprio tempo e, por isso, deixar as coisas para a última hora, têm que entregar tudo sob pressão e fingem gostar disso”, diz Ferrari. Na maioria das vezes, elas não conseguem calcular racionalmente o período necessário para a realização de uma tarefa, deixando-a, então, para os momentos finais.


No ambiente de trabalho, é comum agirmos pautados pelas prioridades. Ainda mais hoje, em que tudo parece ser ainda mais urgente. “O senso de urgência teve sua referência alterada. Tudo é muito rápido, tudo é para ontem, tudo tem que ser agora. Do contrário, podemos perder clientes, dinheiro, posição ou até status”, diz o consultor de recursos humanos Marcos Nascimento. Mas essa mudança no parâmetro de urgência afetou todos nós de forma negativa. Tanto que não podemos conviver com a ideia de deixar para amanhã a resposta a um email que não é tão importante assim. Na ânsia de fazer tudo e mostrar para o chefe que dão conta de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, as pessoas acabam postergando as tarefas que deveriam ser fundamentais. “A tendência que temos em glamourizar o estresse influencia muito nossas decisões. Daí, como temos muitas coisas consideradas urgentes, é bem provável que coisas cruciais, realmente importantes, fiquem negligenciadas”, afirma.


Ou seja, esse novo senso de urgência está fazendo com que nos tornemos mais procrastinadores ao adotarmos a ideia de que tudo é impreterível. Não é: há coisas mais urgentes do que outras. E estabelecer essa hierarquia de prioridades, apesar de difícil, é primordial para que as tarefas importantes sejam feitas com a dedicação que elas exigem. Estudos indicam que, quanto mais detalhada e objetiva for uma tarefa, mais chances temos de realizá-la. Se, ao contrário, percebemos uma atividade como distante do aqui e agora, tendemos a deixá-la para ser resolvida em um futuro vago, para quando sobrar um tempo – se é que vai sobrar. Por isso, é mais fácil procrastinarmos uma intenção (como começar a estudar italiano) do que uma tarefa (entregar um orçamento). Criar prazos e termos concretos é uma forma de nos impulsionarmos a pôr a mão no batente e seguir em frente – seja no que for. Se os editores desta revista não me dessem um prazo, dificilmente eu estaria contando o que eu apurei nesta reportagem para você neste momento. Provavelmente, ia continuar a me distrair com o jornal ou até com outros afazeres acumulados. Porque os prazos nos ajudam a vislumbrar o que tem que ser feito. E fazer!



Tomar decisões: Mas nem todo mundo consegue ter essa visão prática da vida. Tenho uma amiga que vive uma grande dificuldade nesse sentido. Não que ela não saiba o que é preciso fazer. Ela sabe – e faz muitas delas, principalmente no trabalho, onde todos nós costumamos ser mais responsáveis. Mas muitas vezes ela procrastina por não conseguir tomar uma decisão acertada das coisas. Desde que eu conheço a Carla (como ela pediu para chamá-la aqui), ela sempre foi assim: atrasada para todos os encontros e compromissos, ela tem um verdadeiro guarda-roupa no carro justamente por nunca conseguir ir para casa se trocar. Em aniversários e comemorações, ela não compra o presente de última hora: compra no outro dia, quando o aniversário já passou. Há duas semanas, a vi online no MSN e perguntei se ela permitia que eu contasse a história dela aqui, já que não conhecia uma pessoa mais procrastinadora. Ela gostou da ideia, mas precisaríamos conversar outra hora porque ela tinha que pagar uma conta pela internet ainda naquele dia. Detalhe: eram 23h40 da noite. “Sou enrolada mesmo,. Fico adiando e quando vejo passou da hora. Se eu sei que tenho 15 minutos para fazer alguma coisa, eu uso os 15 minutos cheios e ainda aproveito mais uns dez minutos que usaria para outra coisa”, admite.


Não pense que a Carla se vangloria por ser assim, não. Se pudesse, ela seria bem mais organizada e decidida. “Quando consigo me organizar e antecipar as coisas, sinto uma satisfação muito grande. Mas quase nunca consigo”, diz. E essa impossibilidade não está ligada somente aos afazeres e compromissos, mas à vida pessoal. Em um relacionamento há cerca de oito anos, ela já não se sente tão envolvida, mas não consegue dar um ponto final à relação. “Nos últimos dois anos, o problema só se agravou. Eu continuo adiando, adiando e adiando. Mas eu simplesmente não enxergo o dia em que essa decisão terá que ser tomada. Fico buscando caminhos, saídas, soluções. Tudo para evitar cada vez mais algo que é inevitável”, conta.


Carla faz parte de um grupo de pessoas que procrastinam por não conseguir tomar decisões porque não decidir, na cabeça delas, as absolve das responsabilidades que viriam com tais decisões. E, para não sofrer as consequências, preferem ficar estacionadas. A maioria de nós também é assim: temos a necessidade imperiosa de evitar ou desprazer a qualquer custo. Preferimos, muitas vezes, a agonia da espera, em lugar de fazer de uma vez o que precisamos, principalmente se for para nos causar qualquer tipo de sofrimento. Não conseguimos ter o distanciamento necessário para estabelecer uma relação entre esforços e resultados e perceber que o sofrimento, muitas vezes, vem em decorrência de uma mudança mais positiva. E que causaria muito mais prazer para nós mesmos.


Sem medo de arriscar: Segundo Ferrari, essa questão está ligada a nossa baixa autoestima e nossa insegurança. E, por causa delas, acabamos protelando por evitar o medo de não termos o sucesso esperado em algumas tarefas. “As pessoas com essas características são muito preocupadas com o que os outros pensam delas. Dessa forma, preferem que pensem que ela é displicente e tem problemas em se esforçar para agir do que percebam que, no fundo, elas não têm habilidade para isso”, explica. Quem se lembra da história de Joe Gould sabe bem o que isso significa. Gould era um boêmio culto que vivia como um mendigo pelas ruas de Nova York entre as décadas de 1940 e 50 sem dinheiro no bolso e com uma ideia fixa na cabeça: escrever uma obra monumental que ele tinha intitulado de História Oral do Nosso Tempo. O livro seria o maior já escrito no mundo e reuniria ensaios e conversas ouvidas por ele em suas andanças pela metrópole americana.


Gould tinha certeza de que a obra faria dele um grande escritor e historiador dos tempos modernos, um nome para ser lembrado pela posteridade. Sua vida foi contada pelo repórter Joseph Mitchell, um dos maiores nomes do jornalismo literário, em dois perfis publicados na revista New Yorker – e depois reimpressos no livro O Segredo de Joe Gould. Sem querer ser um estraga- prazeres, revelando o segredo de Gould aqui, é imperativo: a História Oral não existia, era uma mentira forjada por Gould. Ele nunca chegou a escrever um rascunho do livro, apesar de propagar em conversas a grande obra-prima em que estava trabalhando. “A História Oral era seu salva-vidas, o único meio de se manter à tona”, escreveu Mitchell sobre seu personagem. “Se ele a tivesse escrito, provavelmente não haveria de ser o grande livro que andara apregoando para cima e para baixo”, acredita seu biógrafo.


Por achar que o livro propriamente dito fosse ser inferior à ideia que ele tinha (e fazia os outros terem), Gould recuou e preferiu viver por trás da máscara de um grande escritor sem nunca tê-lo sido. “É normal as pessoas se sentirem paralisadas quando algo parece ser maior do que elas. Acabam procrastinando porque exigem tanto de si próprias numa tarefa que acabam com medo de enfrentá-la”, afirma o psicoterapeuta e filósofo Ari Rehfeld.


O perfeccionismo exacerbado tem a capacidade de nos fazer desistir ou postergar por um tempo ilimitado nossos afazeres, desejos e intenções. “Dê-se a chance de realizar algo bom e não necessariamente ótimo. Experimente começar a fazer para só depois avaliar. Permitir começar já é um grande passo”, aconselha Rehfeld. Claro que é preciso ter consciência das limitações e habilidades para o que se está disposto, mas se vencermos o que nos paralisa e nos desviarmos das distrações que nós mesmos colocamos todo dia em nossa vida, já teremos meio caminho andado para enfrentar qualquer situação. Nem que seja, como no meu caso ou no de Gould, uma temida página em branco.


Xô, procrastinação:

CRIE PRAZOS:Eles são importantes para nos organizarmos mentalmente e termos claro que não podemos enrolar para sempre para fazer as coisas e cumprir os compromissos.


DÊ-SE RECOMPENSAS:Permita ficar meia hora batendo papo para algumas horas seguidas trabalhadas ou prometa-se um presente quando estiver na metade do projeto. Isso ajuda a se esforçar mais.


CONCENTRE-SE: A forma mais fácil de procrastinar é se distraindo. Dê atenção às tarefas. E evite telefones, e-mails e tentações da internet.


FAÇA LISTAS:Coloque tudo o que você tem ou deseja fazer no papel. Mas seja sincero mesmo: elimine as tarefas que você não planeja realizar nunca, mas vai acumulando.


NÃO MISTURE Faça listas diferentes para prioridades do trabalho e dos afazeres domésticos, por exemplo. Senão as urgências do trabalho vão sempre ficar em primeiro lugar.


ABRA O JOGO: Se você acha que não vai dar conta de uma tarefa, seja honesto: fale das suas dificuldades. Mas, se possível, tente fazê-la. Você pode se surpreender.
(Fonte:Revista Vida Simples/Setembro)

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